Quem não teve a oportunidade de assistir o DVD de Ana Carolina e Seu Jorge perdeu a chance de ver, nos extras, esse excelente texto de Elisa Lucinda (poetisa e atriz global), lido com excelente interpretação pela Ana Carolina. É uma história cotidiana, com humor mordaz e bastante envolvente.

Abaixo segue o texto na íntegra, porém é mais agradável a versão interpretada, que pode ser ouvida no podcast abaixo – sou chique, também faço podcasting :) . Ou, faça os dois: leia e ouça:)

(para ouvir o podcasting basta apertar no botão play, no final do post)

ALFREDO É GISELE

Sora vê, daqui do táxi a gente sabe é cada coisa! Sabe e aprende, aprende até a não ter preconceito. É, vou dizer, cada um tem o seu segredo, seu cada qual. Nem que seja uma coisica de nada, no fundo todo mundo lá dentro tem uma verdade só dele, que às vezes nem ele mesmo sabe.

Outro dia peguei um casal assim já de meia idade, bem apessoado, lá no centro, no Teatro Municipal. Eles tinham ido vê uma tal de Ópera, sei lá. Já eram umas onze e meia da noite, e a gente veio bem até o Aterro, entramos em Botafogo e o trânsito emperrou. A mulher já azedou na hora e foi falando pro marido:

Que trânsito é esse, quase meia-noite? Não é esquisito, Alfredo?

E o tal do Alfredo parecia um homem rico, mas não era fino, sabe? E não gostava mais dela, acho. O cara era uma múmia. A resposta dele pras conversas da mulher tavam mais pra rosnado, sabe?

Alfredo, isso não é um absurdo? Nós aqui parados num trânsito quase de madrugada, não entendo, é estranho, hoje é sábado. Será que é algum acidente, Alfredo?

Como o homem não dizia nada, aí eu interrompi:

Com todo o respeito, sabe o que é isso madame? Simplesmente aqui virou um lugar só dehomensexuais e mulher sapatona. É cheio de barzinho deles, a rua toda. Fim de semana ferve. Quem quiser ver homem beijando homem e mulher se esfregando em mulher, é aqui mesmo.

Você tá ouvindo, Alfredo? Meu Deus, eles agora têm até bar pra eles, até rua!? Não é um absurdo, Alfredo?

Ô Onça, cê me conhece, sabe bem como é que eu sou. Pra mim isso se resolve é na porrada. Se eu sou o pai, desço do carro e não quero nem saber o que é que entortou, o que é que virou, não quero saber o que é cu e o que é fechadura, baixo o sarrafo na cambada! Eu, com sem-vergonhice, o sangue sobe, viro bicho!

Pára de falar essas palavras de baixo calão, Alfredo. Hum! Fica de gracinha que a pressão vai lá nos Alpes, você sabe muito bem o que é que o médico falou…, não é motorista? Alfredo não é muito esquentado?

Eu dei o meu pitaco:

É madame, o negócio que ele tá falando é como eu vi no filme: uma metáfora. Ele não vai bater, vai só ficar zangado.

E o senhor sabe lá o que é metáfora? O senhor lá entende de metáfora? Escuta isso Alfredo! O que é metáfora, seu motorista?

Metáfora pelo que eu entendi é assim: aquilo não é aquilo, mas é como se fosse aquilo. Então, em vez da gente dizer que aquilo é como se fosse aquilo, a gente diz que aquilo é aquilo. Mas não é. É como se fosse. Foi?

Eu acho que o senhor tá certo, mas na verdade eu estou é chocada com essa libertinagem. Olha aquele homem… que safadeza meu Deus! E de bigode ainda! Escuta isso Alfredo!

Escutar o que, Coisa?

O que eu estou vendo, gente! Ai, Alfredo, não está vendo? Parece que é cego, não é motorista?

Hoje tá até fraco. Eu falei. Hoje nem tem osgeneral.

Quem são? Escuta isso Alfredo!

General da sapatona é aquelas de coturno que parece mais com um macho do que qualquer outra coisa. E o outro general é o homem transformista que é a traveca, mas anda é na Gilete mesmo.

Tá ouvindo, Alfredo? A violência e a decadência como estão?

E a gente vai ter que ficar parado nesta merda, ô Coisa?

Calma, Alfredo, não fica nervoso! Isso é questão do nível das pessoas. A gente tem… não é motorista?… mais condições, temos que entender essa…, essa…, como é que eu digo, meu Deus? Essa…

Putaria!

Falamos juntos, eu e o tal do seu Alfredo com cara de doutor de num sei de quê.

Cruzes, Alfredo, não era isso que eu ia… Alfredo, olha, aquela moça! Gente, uma menina, dezoito no máximo, e a outra maiorzuda no meio das pernas da coitada, fazendo sabe lá o quê!!! Tá vendo Alfredo aquela ali? Ali, aquela Alfredo, em cima do carro! Olha lá, Alfredo, a mão da grandona na menina! Elas vão ser beijar na boca, minha Nossa Senhooora…

Que transitozinho, hein, jararaca?

Tá beijando, tá beijando, tá beijando Alfredo! Ela parece… Alfredo é Gisele! Alfredo! Nossa filha!?

Filha da puuuutaaa…

E desmaiou o tal do doutor, enquanto a jararaca da mulé ventou porta afora de sapato na mão atrás das duas e eu pensando: não quero nem saber, encosto aqui mesmo e espero resolver, que uma corrida dessa eu não vou perder, que eu não sou bobo e nem sou rico. É ruim de eu ir embora, hein?
Então, fiquei naquela situação: eu com um cara que era um ex-valente todo desmaiado no banco de trás parecendo uma moça e a mulé pisando forte que nem um general. Quer dizer, tudo trocado e eles reclamando da filha. Se eu pudesse ia lá defender a moça, mas não posso, já que o negócio é de família, né? Eu não tenho preconceito, mas é isso que eu tava falando pra senhora: daqui a gente sabe cada coisa! E é cada um como o seu cada qual.

Elisa Lucinda

 

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